Em busca do Elo Perdido – Crítica Categoria Política

O desbunde do desbunde*

Contribuições para uma reconstituição dos fatos que levaram ao Circuito Fora do Eixo**

Por Carolina Monteiro***

O Circuito Fora do Eixo é uma rede descentralizada de produção cultural que mobiliza pessoas dos quatro cantos do país em favor de uma cultura independente, autoral e colaborativa. Suas ações têm dinamizado a cena cultural brasileira, fomentando uma oxigenação na produção por meio da descentralização e da socialização do processo de trabalho e distribuição de música, teatro, circo, audiovisual, tecnologia e informação e mobilizando artistas, produtores culturais, comunicadores, gestores e intelectuais em coletivos de produção espalhados em 24 estados. Nesse sentido, reivindicar a Tropicália e o Modernismo, marcos da história da cultura libertária brasileira, como antecedentes deste fenômeno, é não só legítimo do ponto de vista histórico – uma forma de compreender o longo processo que desemboca na possibilidade de uma movimentação desta complexidade -, como necessário para a construção de um projeto propositivo que avance histórica e politicamente no sentido da afirmação de um mercado cultural alicerçado sobre bases mais democráticas.

O modernismo, movimento cultural sem precedentes na história do país, repercutiu fortemente na cena artística da primeira metade do século XX, sobretudo no campo da literatura e das artes plásticas. Foi marcado pela liberdade de estilo em contraposição à métrica vazia do parnasianismo vigente. Seu mais significativo feito foi a síntese improvável entre as tendências artísticas lançadas pelas vanguardas européias antes da Primeira Guerra Mundial e as raízes culturais brasileiras, que foram deglutidas conjunta e “antropofagicamente”, resultando num híbrido que simboliza a ruptura definitiva com a arte tradicional. O modernismo lançou suas bases a partir da cidade de São Paulo que, contagiada pelo discurso do progressismo e do nacionalismo, buscava uma atualização das artes.

A tropicália, por sua vez, radicalizou a abertura modernista, se expressando pelo “desbunde” generalizado à cultura obscurantista da opressão que vigorava no Brasil na década de 60. Suas ações tinham um conteúdo essencialmente estético e comportamental e propuseram rupturas para a música, o teatro, as artes plásticas, o cinema. Assim, reinventou-se a poesia, coloriu-se os festivais midiáticos, libertou-se o ato de criação artística das amarras de uma prática cultural caduca e purista, numa conjunção entre vanguarda, cultura popular e indústria cultural. Embora não tenha se constituído como um movimento no estrito termo, a tropicália empreendeu uma experiência estética com enorme potencial crítico-reflexivo de ruptura e renovação, como foi a antropofagia para a cultura, a pop art para a arte e o concretismo para a poesia.

Tanto o Modernismo quanto a Tropicália, resguardadas as suas particularidades, estão inevitavelmente vinculados ao seu contexto histórico. É a profunda compreensão do momento que torna possível a manipulação das condições e mecanismos favoráveis à novidade, o que, neste caso, abriu passagem para as contínuas transformações pelas quais passaram cultura brasileira a partir do século XX. O modernismo, por exemplo, surge na São Paulo dos anos 10 e 20, caracterizada então pelo afluxo de imigrantes italianos e por uma juventude intelectualizada crítica ao academicismo e às influências francesas da belle époque. Diferentemente do Rio de Janeiro, um reduto da burguesia tradicionalista e conservadora à época. As práticas vivenciadas pelos diversos movimentos sócio-culturais expressam, portanto, a evidência de um processo que é fundamentalmente político.

Em uma de suas lições mais valiosas, o filósofo italiano Antonio Gramsci (2004) ressalta a relevância de “uma justa análise das forças que atuam na história de um determinado período” para se clarear a relação entre elas e as posições que efetivamente podem assumir nas disputas pela hegemonia****. “É necessário mover-se no âmbito de dois princípios: 1) o de que nenhuma sociedade se põe tarefas para cuja solução ainda não existam as condições necessárias e suficientes, ou que pelo menos não estejam em vias de aparecer e se desenvolver; 2) e o de que nenhuma sociedade se dissolve e pode ser substituída antes que se tenham desenvolvido todas as formas de vida implícitas em suas relações”.

Uma das imagens que, nesse sentido, melhor evocam a idéia que tem representado o Circuito Fora do Eixo é aquela d’O Artista Igual Pedreiro*****. A ação político-cultural empreendida no âmbito da rede expressa um conteúdo marcadamente profissional e comprometido com o mundo do trabalho. Ao contrário do Modernismo e da Tropicália, o Circuito se constitui num processo de estruturação do processo produtivo da cultura. Um dos aspectos mais interessantes desta escolha diz respeito à opção pela autogestão como forma de gerir um movimento que atua em dimensões continentais. Daí depreende-se um dos aspectos históricos e metodológicos mais expressivos das potencialidades políticas da rede: a sistemática ocupação da Internet e a exploração dos potenciais das novas tecnologias da comunicação.

A prática da autogestão (SINGER, 1998, 2002) visa a criação de um ambiente democrático de administração, com as informações fluindo livremente entre os membros do empreendimento, já que, neste caso, há uma real apropriação, pelo trabalhador, do processo produtivo, bem como dos resultados do seu processo de trabalho. A escolha por esta forma de gestão em detrimento de outras tantas cria, por si mesma, possibilidades para o desencadeiamento de um circuito de ressignificações que repercutem não apenas economicamente, mas cultural, ética e politicamente. A discussão a cerca da “tecnologia social” é um destes aspectos. A grosso modo, a tecnologia social compreende as técnicas e/ou metodologias reaplicáveis desenvolvidas conjuntamente com o “beneficiário” do produto ou serviço, representando efetivas soluções de transformação social.

A ocupação da internet como grande arena de debates, troca de informações, articulação e gestão do movimento; a potencialização da capacidade dos novos meios de comunicação em produzir informação, arte e comunicar a cultura; a socialização dos grandes meios de produção da contemporaneidade; todas estas ações sendo empreendidas em favor de uma prática cultural livre dos jogos mercadológicos são formas de tecnologia social e socialização da tecnologia, mas, num outro nível, são formas de subversão de instrumentos criados originalmente como suporte da ideologia dominante, detectores da racionalidade objetiva, em favor de um projeto de emancipação dos sujeitos sócio-culturais.

Uma tal concepção das novas tecnologias de comunicação insere-se, ainda, dentro da problemática da comunicação popular. Esta área do saber e campo de ação tem oferecido contribuições para um modelo de intervenção social orientado no sentido de conferir aos indivíduos e coletividades secularmente oprimidos uma visão sistêmica de sua condição no mundo, das mediações às quais está sujeito, bem como das possibilidades de intervenções sociais libertadoras pelas quais ele pode construir sua história. Na concepção da comunicação popular, o indivíduo supera a condição de receptor ou emissor, e passa a produzir e consumir participando coletivamente da construção de conteúdos e da gerência de sua transmissão. Cicília Peruzzo (2004) ancora a comunicação aos movimentos sociais, creditando a ela a capacidade de “articulação de propostas políticas”, que respondem às contradições sociais se estruturando como luta da população por “espaços democráticos negados pela classe do poder”.

Não por acaso, o Circuito Fora do Eixo se liga, inclusive formalmente, ao Movimento de Economia Solidária. Ao contrário do discurso que pretende situar detentores de capital e detentores de força-trabalho em condições de igualdade no mercado de trabalho – o que se constitui no fundamento ideológico do mascaramento e legalização da exploração -, o projeto de uma Economia Solidária (SINGER, 2000, 2002) busca a construção de uma nova sociedade igualitária, a partir de uma transformação cultural por meio da qual os empreendimentos passem de lugar de exploração a lugar de reprodução ampliada da vida. Seu grande potencial está nesta capacidade de redesenhar padrões, no que se refere aos hábitos relacionados com os mecanismos de produção, distribuição e consumo de bens e serviços, mas principalmente com relação à busca por uma nova configuração mental para o trabalhador.

Em um tempo histórico em que a ideologia do capitalismo busca sedimentar o senso comum de que não há alternativa a esse modo de produção, o Circuito Fora do Eixo surge como uma construção cotidiana e gradual da negação, que se manifesta positivamente sob a forma de relações sociais renovadas, que se dão em contextos de produção associada e fomentam novas concepções e práticas de formação humana. Significa reafirmar, como o mestre Jards Macalé, que o “desbunde desbundou” – que a juventude ultrapassou a enorme porta entreaberta pelo esforço de movimentos como o Modernismo e Tropicália e está viabilizando formas de vivenciar, no médio e longo prazo, não só uma cultura independente e autoral, mas uma opção profissional comprometida com um projeto político-econômico assentado sobre valores emancipadores. O processo que está em curso constitui-se por meio da contínua (re)criação de narrativas e da experimentação de relações sociais, culturais e produtivas horizontalizadas, pautadas pela autogestão, associativismo, troca e compartilhamento em rede, além do mais, capaz de alicerçar novos marcos subjetivos inseridos no campo das complexas tensões ideológicas e disputas de sentido na contemporaneidade: uma síntese histórica que a juventude persegue desde o mais remoto dos tempos.

Notas:

* Referência à expressão “O desbunde desbundou”, utilizada por Jards Macalé no segundo dia de debates do Observatório Fora do Eixo, contextualizando o atual estado do “desbunde” (o termo foi primeiramente utilizado por José Celso Martinez, no primeiro dia de debates, para caracterizar o comportamento da juventude durante a Tropicália).

** Crítica Literária produzida dentro da abordagem “Política” para a Campanha do IV Observatório Fora do Eixo. Com o tema “O Elo Perdido”, esta edição propôs o debate sobre os dois dos maiores movimentos da cultura brasileira e suas influências na cultura independente hoje: A Tropicália e o Modernismo.

*** Carolina Monteiro é graduada em Comunicação Social – Jornalismo pela UNESP/Bauru (2005) e especialista em Comunicação Popular e Comunitária pela UEL/Londrina (2010). Sua linha de pesquisa tem-se consolidado na abordagem da Comunicação Popular, a qual experencia no âmbito da Economia Solidária, desde 2005. Atualmente está cursando o mestrado em Comunicação na Unesp, linha Práticas Culturais. Sua pesquisa propõe identificar e discutir os mecanismos comunicativos utilizados pelo Circuito Fora do Eixo, a partir das abordagens teórico-metodológicas da Comunicação Popular e Economia Solidária. Para tanto, está acompanhando o Enxame Coletivo, de Bauru. Pretende acompanhar o coletivo Goma no segundo semestre.

**** Hegemonia: conceito desenvolvido pelo filósofo Antonio Gramsci para designar a conquista do consenso e da liderança cultural e político-ideológica de uma classe ou bloco de classes sobre as outras. Além de congregar as bases econômicas, a hegemonia tem a ver com entrechoques de percepções, juízos de valor e princípios entre sujeitos da ação política.

***** “Artista igual Pedreiro” (2008): álbum de estréia do power trio cuiabano Macaco Bong, do Coletivo Espaço Cubo, um dos fundadores da rede Circuito Fora do Eixo.

Referências Bibliográficas

PERUZZO, Cicilia Krohling. Da observação participante à pesquisa-ação no campo comunicacional: pressupostos epistemológicos e metodológicos. In: MELO, José Marques de; e GOBBI, Maria Cristina (Org). Pensamento Comunicacional Latino-Americano: da pesquisadenúncia ao pragmatismo utópico. São Bernardo do Campo: Umesp: Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional, 2004.

GRAMSCI, Antonio. Escritos políticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

SINGER, P. & SOUZA, R. (2000) A economia solidária no Brasil: a autogestão como resposta ao desemprego. São Paulo, CONTEXTO.

SINGER, Paul. Introdução a Economia Solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.

_________. “Uma Utopia Militante: repensando o socialismo”. Petrópolis: Vozes, 1998.

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