Em busca do Elo Perdido – Crítica Categoria História

Carta aos novos Navegantes:

breve itinerário de uma Viagem

Poesia/ Eu não te escrevo/ Eu te/ Vivo/ E viva nós!”

Cacaso

Brasil: Ano 1556: Dom Pedro Fernandes Sardinha, o Bispo Sardinha, o primeiro da ilha de Vera Cruz, é devorado, no Ceará, pelos índios caetés, antropófagos. A manhã tropical se inicia. Corte seco.

Oswald de Andrade, numa viagem a Paris, início dos anos 20, descobre o Brasil. Ver com olhos livres mata a charada: Amor/Humor. Poesia pílula, piada, haicaizada. Poetas atiram pedras nos comportados caminhos. O pó parnaso é varrido, o homem de bem açoitado, o branco cristão carnavalizado: Miramar: a prosa cubista, o cinema incorporado, literatura fragmentada: o futurismo italiano desfacistizado & o cubismo francês telegrafado. Poesia pau-brasil: a descoberta das coisas que nunca vi. A contribuição milionária de todos os erros: a fala do povo, gíria-poesia, gabinetismos arrebentados. Macunaíma.

Intensa luta cultural: a atrasada burguesia brasuca copiadora de trejeitos franceses acha tudo um absurdo. O Estado de S. Paulo é contra (pra variar). Ah! se Pinxinguinha e Villa-Lobos tivessem mesmo se encontrado… carros na rua, postes elétricos, cinema. Bandeira xinga. Mário de Andrade canta. Oswald tira um sarro e sai dançando um fox-trot. A Paulicéia tá desvairada.

Tarsila & o Abaporu. Oswald & Raul Bopp & Antônio de Alcântara Machado fundam a Revista da Antropofagia. Na primeira dentição, o Manifesto Antropofágico: devoração crítica do legado cultural universal: transmutação de todos os valores. Nietzsche samba. Uma nova cosmologia nacional, dialética dos trópicos, armas em punho, dentes afiados: um banquete de novas possibilidades. Serafim Ponte-Grande, no seu barco, é um necrológio da burguesia, o Movimento como Libertação. A revolução Caraíba! Como um profeta bárbaro, Oswald antecipa os anos 60, pai da Explosão; morre em 54 e coça o nariz com a bandeira nacional.

Bomba atômica: Plano-piloto para Poesia Concreta. Paulo Leminski, no seu estilo zen-loquismo, escreveu um ensaio sobre os beatniks e os concretos. Anos 50: enquanto, nos EUA, sociedade vivendo o boom da comunicação de massa tecnológica, a poesia buscava a oralidade, era um Uivo, um comportamento. Poetas on the road. Kerouac & Dylan. No Brasil, em processo de urbanização-capitalismo-terceiromundista-tardio, a poesia buscava uma operação altamente intelectual, vanguardista, tecnológica. Augusto & Haroldo de Campos & Décio Pignatari & outros: o projeto verbovicosual. O subjetivismo romântico do poeta pelo projeto do poema. Som, cores, visualidade são incorporados: poesia-neon, poesia-cartaz, poesia-objeto. A radicalidade da linguagem: a poesia não cabe mais no papel. O debate é acalorado, a poesia concreta recria um itinerário de referências. Oswald é reeditado.

José Agrippino de Paula, o xamã  anarquista, escreve chapado de Imagens ‘PanAmérica’ de áfricas utópicas, dá o start tropicalista na cabeça de Caetano – junto com os terremotos sensoriais do rei da vela Zé Celso & Glauber Rocha (a Terra continua em Transe!) – e escreve sua bíblia pop-lisérgica sobre o parque industrial da sociedade de consumo planetária. PanAmérica: um tijolo sem psicologismos cujo personagem principal  é simplesmente um ‘Eu’ reiterativo que dirige uma megasuperprodução hollywoodiana: “A Bíblia”. Saquem este trecho: “A multidão colorida e caótica atravessava os portões e se introduzia desornadamente nas esteiras rolantes e era transportada imóvel e curiosa para perto da cúpula de vidro onde se encontravam dois testículos gigantes. Um grande número de cabeças conversava entre si trocando impressões sobre os enormes testículos, e alguns retiravam as suas máquinas fotográficas e binóculos quando a esteira rolante os conduzia para a cúpula de vidro iluminada pelas luzes amarelas, verdes, vermelhas”. Cinematográfico, violento e visceral. Ficção contracultural brasileira.

Aí Bethânia vê Roberto Carlos e conta pro mano. Rock dum lado, bossa-novistas do outro e a multidão careta fazendo passeata contra a guitarra elétrica, pela família & o escambau. Uma noite em 67 chega: Alegria, Alegria e sua câmara na mão godardiana & Domingo no Parque e sua montagem eisenstianiana. Ruptura total. Geléia geral. Oiticica assassina o museu, Bressane & Sganzerla & Helena Ignez deslimitam a Tela. Rogério Duarte, tropicaos. Medaglia & Duprat desorquestrando o Som. Que tudo mais vá pro inferno, meu bem! Desbunde transcendental. O Kaos. Geração AI-5 reinventando a política e a arte. O pau comendo. O mundo em chamas! Violãozinho é o caralho! Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha e se esculhamba.

Tropicália: o Manifesto Antropofágico em forma de canção. O movimento em forma de disco. Roupas coloridas, sexo livre, Brasil futurista. Não temos tempo de temer a morte. Tropicália lítero-musical: Wally & Macalé & Gal: fusão de poesia & vozes. Caetano & Campos: experimentalismo concreto-sonoro-visual. Gil & Torquato: A alegria é a prova dos nove. Tom Zé & Mutantes: o caipira é o novo astronauta. Como disse Mário Pedrosa: estamos condenados à modernidade. AntroPOPfágico.

O Brasil na porrada: a juventude universotária nacional-popular pseudo-marxista proíbe o É proibido proibir. Já imaginou quando eles chegarem ao poder? Godard aponta sua câmara-revólver. Torquato se mata. O sonho acabou, quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou.

De volta à poesia: quem não foi pro exílio ou luta armada ou morreu ou pirou. Entra em cena a tecnologia chinela dos poetas marginais: moços e moças cabeludas um pouco de bode com o cerebrismo dos concretos e, no meio do chumbo militar, fazendo sua revolução do corpo & da mente, começam a rodar seus poeminhas coloquiais sobre tudo & todos em mimeógrafos, e tudo à mão, sem mãe-editora, saem às ruas vendendo em bares, por aí. – Isso não é poesia!, berrou tímido o crítico chato de mãos dadas com o doutor da universidade resguardada; Cacaso assoviou, Ana C. escreveu uma carta, Chacal na praia, Roberto Piva, então, me desculpem, pessoas da sala de jantar, mandou tudo é pra puta que pariu: 20 poetas & outros tantas e tantos espalhados por aí. Heloísa Buarque te explica; taí pra baixar. Mimeografo generation pros íntimos, poesia marginal pra história: hippies de atitude punk. A poesia na boca do povo.

Tudo ao mesmo tempo agora I: Poesia concreta/prosa caótica/ótica futura/samba-rap/chiclete com banana. Glauco Matoso e Arrigo Barnabé! Tudo vira pós-moderno. Como ter parâmetros? Precisamos deles? Quem sou eu?

Coletivos se (des)organizam.

Nuvem Cigana: um grupo de criação que editava poesia, fazia teatro e tinha bloco de carnaval e time de futebol: eventos performáticos, multimidiáticos & libertários enquanto se esperava a anistia ampla, geral e irrestrita. Tudo em volta da Palavra. A poesia segue seu curso além-livros. O Nuvem prepara o terreno pra outras paradas, os exilados voltam, os beats são editados no Brasil e as editoras Brasiliense e L&PM formam gerações de leitores com seus livros de bolso. Literatura rock’n’roll: cazuza lendo ginsberg; o Asdrúbal trouxe o Trombone? Coletivos teatrais, a Palavra no palco.

Fausto Fawcett aparece, o robô efêmero chega com suas loras heavy metal, cyberpunk tropical de camisa florida de Copacabana. Cinema-musical-literário-teatral e vice-versa. Óperas pop. Alta-baixa cultura, periferia-centro: dualidades aterrorizadas e assassinadas pelo bárbaro tecnizado Fawcett, ficção científica na praia, corpos nus plugados nos subterrâneos da estratosfera, mitos nas ruas. Kátia Flávia é a nova Capitu.

Prosa e poesia dum país aprendendo a brincar de ser livre: Reinaldo Moraes, Márcia Denser, Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll, uma geração aprendendo a viver no limite. Um certo hedonismo desencanado. Tanto Faz. Mundo, poesia e seres pós-utópicos. Acabaram-se os projetos?

Brasil: Anos 2.000: Parabolicamará é presente.

Aparecem os novos escritores, os coletivos, os blogs, os famosos e-zines, as pequenas editoras: Livros do Mal, Ciência do Acidente, Edições K, Baleia, & etcs, as revistas virtuais e físicas: o do-it-yourself repaginado. Projetos internéticos, discussões sobre a necessidade do livro em papel. Fetichismo de escritor? Alguns migram pra grandes editoras e partem pra Flip. A Web 2.0 agora pauta.

Enquanto isso: saraus na negritude das perifas vivenciando poetas, formando público. Sérgio Vaz explodindo petardos poéticos na cabeça dos centros. Rythman And Poetry enquanto coletivos & poetas dos interiores desse Brasilzão sem fronteira vão tecendo – surdamente pras mídias tradicionais e estanques – arroubos de revolução. Periferias conectadas. A torre de marfim desmoronou há tempos, desce daí, senta na roda, liga o lap & ouve: Manifesto pela Cultura Digital Brasileira. Somos tod@s piratas. Somos tod@s pontos de cultura, individuais e coletivos.

Um mundo, no qual a internet é tão vital como água e luz, todos plugados – em casa, na rua, no celular, na lan house – com banda larga – de preferência pública! – traz à tona uma literatura desarraigada de ranços analógicos de leituras apenas em livros. A geração que nasce com uma porção de janelas abertas poderá ver uma literatura hyperlink: as palavras deleitando-se aos olhos junto a vídeos e músicas embedados na página com o mesmo nível de importância pro ver & ouvir, sem hierarquismos estéticos, tudo intrínseco e sensual. P2Poesia: poetas-programadores. O software é a mensagem.

Tudo ao mesmo tempo agora II: Rádios livres, softwares livres, pontos de cultura, gestões colaborativas, código aberto, midialivrismo libertário, intervenções urbanas, mundo horizontal, economias solidárias, esfuziantes fraternidades, transgressoras sexualidades, caipiradas intergalácticas, fés dançantes.

Oswald hoje faria mixtapes: `Tudo que não é meu me pertence’ e estaria fazendo passeatas pelo matriarcado livre & a favor do ócio junto a Lautreamont, num free-style beleza: ‘A poesia deveria ser escritos por todos’.

Querid@s, já é! Aquele abraço!

Leonardo Barbosa Rossato

São Carlos, Massa Coletiva, Ano 454 da Deglutição do Bispo Sardinha

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