Em Busca do Elo perdido – Crítica Categoria História

Do modernismo à tropicália


Só a antropofagia nos une.

Socialmente.

Economicamente.

Filosoficamente.

Oswald de Andrade

(Manifesto Antropófago)

Podemos facilmente localizar o modernismo e a tropicália com movimentos considerados pontos de ruptura no campo da cultura e das artes durante o século XX. O primeiro representado pela Semana de Arte Moderna, em 1922, e o segundo pelos Festivais Internacionais da Canção, entre os anos de 1967 e 1968. No entanto, devemos fazer uma série de considerações sobre o porquê desses movimentos – e do momento em que eles aconteceram – terem adquirido tal importância, traçando algumas de suas principais características e a formação de seus contextos. Desse modo, poderemos desvelar com quais aspectos de nossa cultura esses movimentos entraram em ruptura e quais as permanências existentes entre eles, bem como poderemos compreender sua amplitude e penetração na sociedade brasileira.

Em primeiro lugar, devemos nos lembrar que ambos os movimentos surgiram em momentos de vasta interação entre artistas de diferentes localidades do mundo. Esses diálogos propiciaram repercussões com características especificamente locais (nacionais) e, ao mesmo tempo, a busca por elementos considerados essenciais e universais dentro das artes. Além disso, foram movimentos que propiciaram a interdisciplinaridade, a interação entre diferentes campos das artes. Em segundo lugar, ambos surgiram com respostas às inquietações provocadas por  momentos em que certas ideologias totalitárias (como o nacionalismo imperialista e o fascismo)  entraram em franco declínio – acentuado por ideologias que se pretendiam mais ‘humanizadoras’, como o socialismo e, no período do pós-guerra, a idéia de uma cultura ‘universal’, globalizante.

Em ambos os casos, as respostas desses movimentos estavam intrinsecamente ligadas a revolução russa em 1905 e às duas grandes guerras mundiais, bem como aos estragos materiais e sociais causados por ambas, que colocavam em cheque pretensa perspectiva de progresso da civilização e as suas estruturas políticas e sociais. As respostas oferecidas pelos artistas e pensadores se colocavam em franco campo de oposição às ideologias desenvolvidas durante o século XIX; ao racionalismo, a objetividade, rejeitando as estruturas construídas pela civilização ocidental.

Essas idéias abriam espaço para o surgimento de filosofias anti-racionalistas, que no campo estético resultaram em diversos modos de ruptura com relação aos modos de fazer e à prática artística, como a rejeição à tonalidade, a perspectiva, o realismo e o uso da língua unicamente através da norma culta. Em suma, pretendiam alterar os padrões nos usos de diversos tipos de linguagem. Essas mudanças foram também propiciadas e extremamente influenciadas pelas modificações nas condições de vida, seja àquelas surgidas no início do século, como a intensa mecanização da sociedade (carro, avião, telefone, rádio, popularização da energia elétrica), como as surgidas no meio do século (computação, comunicação rápida, nova fase da industrialização, televisão, aparelho de som doméstico).

Em linhas gerais, os dois movimentos podem ser percebidos como momentos importantes dentro de um processo maior de modificação do pensamento e dos costumes na contemporaneidade, do deslocamento de conceitos e estruturas que ainda estão, nos dias atuais, em processo de transição, embora em uma nova fase.

A idéia de que a Tropicália fazia parte desse processo não passou desapercebida pela intelectualidade brasileira em seu momento de eclosão. Mesmo no período anterior a “explosão da tropicália” nos festivais, o discurso construído por Caetano Veloso e auxiliado por alguns dos principais intelectuais brasileiros (entre eles os poetas ligados ao movimento concretista Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari) construía uma perspectiva de “linha evolutiva” da cultura brasileira. Essa linha fazia uma ligação direta entre os primeiros avanços do modernismo e o momento de efervescência cultural vivido nos anos sessenta, selecionando e legitimando as concepções estéticas de ambos, além de explicitar suas convergências em questões de linguagem e projeto de modernização, bem como de produção de significado.

Seus principais objetivos seriam comuns: direito à permanente pesquisa estética,  atualização da inteligência artística e a estabilização de consciência criadora nacional. Em síntese, a criação de linguagens estéticas e comportamentais – construção de uma identidade – propriamente brasileira, nacional, e ao mesmo tempo em pé de igualdade com a cultura mundial.

Nesse sentido, as principais concepções do tropicalismo já estariam presentes no manifesto antropófago, escrito por Oswald de Andrade em 1928 (já complementando outros manifestos, como o Pau-Brasil, de 1925), que, em tom jocoso, afirmava que a cultura brasileira seria naturalmente híbrida, composta por elementos sincretizados por diferentes raças / culturas. Sob essa perspectiva, sua beleza se encontrava justamente na capacidade de “antropofagizar”, de deglutir a cultura internacional, se apropriando de suas características ‘essenciais’, e aplicando estas à realidade brasileira, percebendo e praticando suas especificidades. Obviamente, tais idéias geraram resultados muito criativos, porém bastante heterogêneos, produzidos em diferentes campos de atuação artística.

O modernismo é mais freqüentemente reconhecido pelas artes plásticas (Anita Malfatti, DiCavalcanti, Tarsila do Amaral), e pelas letras (Mário de Andrade, Oswald de Andrade), tendo como principal expoente na música Heitor Villa Lobos. Velado pelo rótulo ‘nacionalista’ – pois buscava uma sonoridade brasileira –, Villa produziu sem concepções políticas, não estilizou o exótico como traço nacional, nem copiou os modelos tradicionais europeus. Seguindo a mesma tendência que outros maestros modernistas, uniu sua música com sons ‘naturais’, e incorporou instrumentos estranhos à musica orquestral, como percussão e ruídos. Outra personalidade importante, Vinícius de Moraes (considerado pertencente à segunda geração modernista), construiu também importantes contribuições no campo musical (poética musical), tendo composto junto a vários outros músicos da Bossa Nova (João Gilberto, Tom Jobim, Baden Powell) já nos anos 50 e 60.

Já o tropicalismo – rótulo construído em torno da música – também dialogou com outras áreas. Além de diversos poetas / letristas (Torquato Neto, Capinam), o grupo interagiu com as artes plásticas (Hélio Oiticica, Lina Bo Bardi), o teatro (José Celso Martinez) e o cinema (Glauber Rocha), colhendo frutos dos avanços e idéias desses outros artistas. No campo musical, o grupo se utilizou bastante dos avanços poéticos e lingüísticos desenvolvidos pelo grupo concretista e da bossa, embora explorasse esses aspectos sob outras perspectivas, substituindo o minimalismo a complexidade harmônica por elementos extravagantes e profusão de cores e timbres, hibridando diversos gêneros musicais. Além de Caetano Veloso e Gilberto Gil – ícones do movimento – devemos considerar a importância de outros músicos que foram fundamentais na composição da estética tropicalista, como os maestros Julio Medaglia, Rogério Duprat (participantes do movimento Música Nova, que em 1963 já antecipava várias das concepções consideradas tropicalistas) e o grupo Os Mutantes, composto por Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee, responsáveis pela sonoridade psicodélica e a atitude contracultural.

As mudanças nos procedimentos artísticos desenvolvidas por esses movimentos levaram à multiplicação de suportes materiais e das formas expressivas da arte, bem como um reposicionamento da recepção da cultura e da relação do artista com o público. Depois dos movimentos culturais dos anos sessenta, não seria mais possível pensar a arte dentro da noção de vanguarda, nem considerar os manifestos como pontos de inflexão do pensamento artístico. Certamente, a importância desses movimentos – ou como pudemos perceber, o desenvolvimento da inteligência criadora nacional – é fundamental para as atuais definições do que entendemos como identidade nacional no campo da cultura.

Eduardo Kolody

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