Observatório do CdC com Abel Contra o Muro

A primeira turnê do Clube de Cinema (CdC), que apresenta o filme Abel Contra o Muro, realiza hoje um Observatório a partir das 20 horas, na Casa Fora do Eixo Sanca, em São Carlos. O tema do debate vai permear a inovadora idéia da frente de audiovisual do Circuito Fora do Eixo de realizar a tour de um filme e contará com a presença dos realizadores do Abel contra o Muro, João Guilherme Perussi (Produtor) e Alexandre B. Borges(Autor e Diretor).

O Observatório visa catalisar  tudo que já vem sendo debatido não apenas na turnê, que já passou por 5 cidades do estado e ainda tem mais 3 paradas pela frente, mas dialogar com pessoas que trabalham e/ou se interessam por audiovisual no país, partindo de uma ação “micro” – a ação em si – para o macro do cinema brasileiro.

Para acompanhar ao vivo o debate, acesse o Canal do Observatório.

Serviço:
Observatório Fora do Eixo do Clube de Cinema
17 de Setembro
A partir das 20h
Casa Fora do Eixo Sanca
Rua 7 de Setembro, 2053

Observatório sobre o Teatro do Absurdo

O Coletivo Difusão (Manaus) promove no dia 31 de maio o Observatório Fora do Eixo Palco Difusão, com o tema “Teatro do Absurdo”, gestão e e processo de criação com a Cia. Artória.

O Observatório acontece da 14h as 18h. Mais informações, acesse o caderno de programação  do Difusão.

A Cultura na Economia da Abundância

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Desde os primórdios da civilização, os homens têm buscado satisfazer suas necessidades por meio de trocas. A moeda surge como um mecanismo de intermediação dessas trocas, facilitando a valoração daquilo que é trocado e permitindo a acumulação do poder aquisitivo para ser utilizado no futuro. Em suma, a moeda surge para facilitar as trocas.

Contudo, com o advento do capitalismo, a essência da utilidade da moeda foi se perdendo. Algumas das características desse sistema, como a propriedade privada dos meios de produção, a exploração do trabalho assalariado e a popularização dos juros favorecem o acúmulo de riquezas, promovendo uma economia da escassez. Isso porque poucas pessoas concentram grande parte das riquezas produzidas e a maioria das pessoas conta com poucos recursos para consumir aquilo que necessitam. Esse modelo, obviamente, não é sustentável, tampouco justo.

Nesse contexto, surgem as moedas complementares, que resgatam o primeiro significado da moeda: facilitar as trocas. Como tod@s sempre têm algo a trocar, ainda que seja apenas sua força de trabalho, superamos a lógica da escassez para entrar numa economia da abundância.

Considerando a Cadeia Produtiva da Música, sabemos que as trocas, as parcerias, costumam acontecer informalmente. A moeda complementar vem para formalizar esse processo e isso é importante porque essa formalização tem o potencial de ampliar as possibilidades de trocas, promovendo o desenvolvimento sustentável de toda a cadeia. Isso porque, por meio da moeda complementar, fomenta-se a produção, a circulação e distribuição de bens culturais.

No caso dos coletivos integrados ao Circuito Fora do Eixo, há uma vantagem a mais na adoção da moeda: como se trata de uma rede de produtores culturais já bastante extensa, presente na maior parte do território nacional, entra-se num círculo virtuoso no qual a moeda tem o potencial de consolidar a rede e a rede tem o potencial de consolidar o circuito.

Além disso, os coletivos mais novos podem contar com o apoio de coletivos que já têm suas moedas (e suas estratégias de atuação) consolidadas, como é o caso do Espaço Cubo e do Goma.

Estima-se que, no Brasil, existam hoje cerca de 45 moedas complementares em circulação. É fundamental aproveitar as experiências dos coletivos que as implementaram para garantir um amplo entendimento sobre o funcionamento dessas moedas. A partir disso, é possível que cada coletivo se consolide, se fortaleça e faça da adoção de uma nova moeda complementar um processo sem atropelos.

Faz-se necessário, portanto, planejar cuidadosamente, aprofundar conhecimentos sobre lastro, liquidez, repensar quantas vezes for necessário as tabelas de produtos e serviços. Nesse sentido, o observatório Fora do Eixo Card é uma oportunidade imperdível, já que garante um espaço de troca de experiências entre os coletivos e desses com profissionais especialistas no assunto. Enfim, um excelente ponto de partida para um novo começo, para uma realidade na qual a cultura é parte de uma economia onde vigora a abundância.

*Rachel Benze é do Núcleo Cooperativo de Comunicação e Cultura do Massa Coletiva

Observados por um olho próprio

Observatório é um lugar situado em um ponto alto, para observações e estudos de eventos celestes e terrestres. Utilizado principalmente na áera astronômica, um telescópio se faz necessário para penetrar o céu à noite. Executando a pesquisa e a coleta de elementos que compõe cada objeto estudado, como uma estrela no céu, um observatório pressupõe um processo de imersão, reflexão e análise da demanda gerada pelo próprio objeto estudado. É nessa inspiração de observações, pesquisas, coletas, análises e resultados que surge o laboratório do Observatório Fora do Eixo, evento totalmente virtual que vem para aprofundar o diálogo entre as frentes gestoras da rede a partir de conhecimentos temáticos e colher mostras do material que compõe o Circuito Fora do Eixo, visando o aprimoramento das ações geradas por esse movimento cultural de coletivos nacionais.

Em virtude da necessidade contextual de aperfeiçoar o sistema solidário Fora do Eixo Card, uma das frentes gestoras e ações mobilizadoras do Circuito Fora do Eixo, o 1° Observatório Fora do Eixo se lança debatendo a Economia Solidária e todos os pilares que caracterizam esse modo econômico de vivência. Penso que a Economia é uma área bastante presente na cultura de qualquer nação, sendo um forte canal de “controle social” pautando inclusive as políticas (públicas ou privadas) que regem uma sociedade. Em qualquer modo de sobrevivência, a economia será demanda constante para a manutenção individual e social. E ainda que o modelo econômico ocidental não seja o mesmo de outras culturas, a exemplo da praticada pelos povos indígenas, a “garantia da sobrevivência” que é o cerne da área econômica, se faz presente. Por isso creio que tratar a economia essencialmente como princípio de sobrevivência é enxergá-la como uma atividade ampliada e transversal entre as outras áreas existentes numa sociedade, que valoriza sobretudo, a garantia das necessidades e anseios humanos. Porém, a Economia moderna talvez tenha se tornado “limitada” quando aceitou que os recursos são esgotáveis e não atendem a todos os desejos e necessidades humanas, criando a filosofia da escolha que é pautada pelos indivíduos que tem a condição de consumir, sobrepondo na maioria das vezes, o desejo dos que já tem as necessidades garantidas, às necessidade daqueles que ainda não a satisfizeram. É justamente por essa escolha determinar uma política social capaz de interferir significativamente no modo cultural de uma sociedade e indivíduos, que decidimos trabalhar a política econômica do Circuito Fora do Eixo e de todos os coletivos que compõe essa rede, sob os princípios da Economia Solidária.

A cultura de certa forma, trouxe uma perspectiva econômica diferenciada por se tratar de uma área “detentora” da criatividade, elemento que se caracteriza como uma fonte inesgotável de recurso. Sérgio Sá Leitão (jornalista e um dos responsáveis pela criação do departamento de Economia da cultura no BNDES) vai além: “O setor cultural está baseado no uso de recursos inesgotáveis (como a criatividade) e consome cada vez menos recursos naturais esgotáveis. Apresenta um uso intenso de inovações e impacta o desenvolvimento de novas tecnologias. Finalmente, seus produtos geram bem-estar, estimulam a formação do capital humano e reforçam os vínculos sociais e a identidade.” Sob esse aspecto, a cultura parece ser uma área significativa para equacionar alguns “problemas econômicos”, com a capacidade de valorização do ser humano e do meio ambiente. Dois Princípios semelhantes aos tratados pela Economia Solidária.

A Economia solidária se pauta na formação de empreendimentos auto gestores com igualdade entre os seus membros. Quebrando uma das principais lógicas dos empreendimentos capitalistas, onde a configuração pedrominante é a do patrão único detentor dos meios de produção e os seus empregados, os empreendimentos solidários valorizam a autonomia e o desenvolvimento humano, estimulando os agentes envolvidos a se responsabilizar pelo resultado do próprio trabalho, assim como dos seus meios de produção. Percebe-se que o desenvolvimento de empreendimentos coletivos, independentes, auto-gestores e culturais que norteiam o Movimento do Circuito Fora do Eixo, tem uma íntima relação com a Economia Solidária, o que nos motivou a buscar o aprofundamento maior dos seus preceitos através do Observatório.

O Cicuito Fora do Eixo é uma Movimento cultural organizado que reúne cerca de 40 coletivos independentes de todo o país. Iniciado em 2005 em virtude de um anseio inevitável de conexão em rede dos diversos pontos que atuavam sob a mesma lógica da cultura independente, coletivos dos municípios de Cuiabá (MT), Uberlândia (MG), Rio Branco (AC) e Londrina (PR) fundaram o princípio da rede pautado nas premissas de produção, circulação, difusão e distribuição. A partir daí, ações em conjunto e a busca por novos pontos fora do eixo calcados no mesmo princípio para a ampliação da rede, foram desenvolvidos.

Em 2008, durante a 6ª edição do Festival Calango, realizamos o 1º Congresso Fora do Eixo reunindo cerca de 30 coletivos independentes brasileiros que logo se ingressaram ao Movimento. Foi o momento de configurar a atuação da rede em coordenadorias regionais para otimizar o fluxo de informações, mobilização e troca de tecnolgias no intuito de aperfeiçoar os trabalhos e fomentar novos pontos pelas regiões do Brasil. A partir da definição concisa das coordenadorias regionais e dos projetos institucionais gestores do Circuito, surge a discussão sobre um sistema solidário da rede, pautado no exemplo de caso desenvolvido pelo Espaço Cubo de Cuiabá (MT) com o Cubo Card.

A moeda complementar que ganhou força no desenvolvimento da cultura independente local, tornou-se um estímulo para os outros coletivos da rede que perceberam ser o princípio da troca, a melhor alternativa para a viabilidade de seus empreendimentos culturais. A partir daí surge o sistema de crédito Fora do Eixo Card com o intuito de fomentar moedas complementares culturais e equacionar os serviços e produtos disponíveis, mediando as relações de troca entre os coletivos da rede.

O 1º Observatório Fora do Eixo com foco no Fora do Eixo Card, explorando as plataformas virtuais como tecnologia social e trazendo a discussão aprofundada sobre a Economia Solidária com profissionais gabaritados, para o aprimoramento da rede, apresenta-se como mais uma ação inovadora que busca alimentar ainda mais esse grande Banco de estímulo que se tornou o movimento do Circuito Fora do Eixo.

* Lenissa Lenza é gestora do Cubo Card do Espaço Cubo/MT