Em busca do Elo Perdido – Crítica Categoria História

Carta aos novos Navegantes:

breve itinerário de uma Viagem

Poesia/ Eu não te escrevo/ Eu te/ Vivo/ E viva nós!”

Cacaso

Brasil: Ano 1556: Dom Pedro Fernandes Sardinha, o Bispo Sardinha, o primeiro da ilha de Vera Cruz, é devorado, no Ceará, pelos índios caetés, antropófagos. A manhã tropical se inicia. Corte seco.

Oswald de Andrade, numa viagem a Paris, início dos anos 20, descobre o Brasil. Ver com olhos livres mata a charada: Amor/Humor. Poesia pílula, piada, haicaizada. Poetas atiram pedras nos comportados caminhos. O pó parnaso é varrido, o homem de bem açoitado, o branco cristão carnavalizado: Miramar: a prosa cubista, o cinema incorporado, literatura fragmentada: o futurismo italiano desfacistizado & o cubismo francês telegrafado. Poesia pau-brasil: a descoberta das coisas que nunca vi. A contribuição milionária de todos os erros: a fala do povo, gíria-poesia, gabinetismos arrebentados. Macunaíma.

Intensa luta cultural: a atrasada burguesia brasuca copiadora de trejeitos franceses acha tudo um absurdo. O Estado de S. Paulo é contra (pra variar). Ah! se Pinxinguinha e Villa-Lobos tivessem mesmo se encontrado… carros na rua, postes elétricos, cinema. Bandeira xinga. Mário de Andrade canta. Oswald tira um sarro e sai dançando um fox-trot. A Paulicéia tá desvairada.

Tarsila & o Abaporu. Oswald & Raul Bopp & Antônio de Alcântara Machado fundam a Revista da Antropofagia. Na primeira dentição, o Manifesto Antropofágico: devoração crítica do legado cultural universal: transmutação de todos os valores. Nietzsche samba. Uma nova cosmologia nacional, dialética dos trópicos, armas em punho, dentes afiados: um banquete de novas possibilidades. Serafim Ponte-Grande, no seu barco, é um necrológio da burguesia, o Movimento como Libertação. A revolução Caraíba! Como um profeta bárbaro, Oswald antecipa os anos 60, pai da Explosão; morre em 54 e coça o nariz com a bandeira nacional.

Bomba atômica: Plano-piloto para Poesia Concreta. Paulo Leminski, no seu estilo zen-loquismo, escreveu um ensaio sobre os beatniks e os concretos. Anos 50: enquanto, nos EUA, sociedade vivendo o boom da comunicação de massa tecnológica, a poesia buscava a oralidade, era um Uivo, um comportamento. Poetas on the road. Kerouac & Dylan. No Brasil, em processo de urbanização-capitalismo-terceiromundista-tardio, a poesia buscava uma operação altamente intelectual, vanguardista, tecnológica. Augusto & Haroldo de Campos & Décio Pignatari & outros: o projeto verbovicosual. O subjetivismo romântico do poeta pelo projeto do poema. Som, cores, visualidade são incorporados: poesia-neon, poesia-cartaz, poesia-objeto. A radicalidade da linguagem: a poesia não cabe mais no papel. O debate é acalorado, a poesia concreta recria um itinerário de referências. Oswald é reeditado.

José Agrippino de Paula, o xamã  anarquista, escreve chapado de Imagens ‘PanAmérica’ de áfricas utópicas, dá o start tropicalista na cabeça de Caetano – junto com os terremotos sensoriais do rei da vela Zé Celso & Glauber Rocha (a Terra continua em Transe!) – e escreve sua bíblia pop-lisérgica sobre o parque industrial da sociedade de consumo planetária. PanAmérica: um tijolo sem psicologismos cujo personagem principal  é simplesmente um ‘Eu’ reiterativo que dirige uma megasuperprodução hollywoodiana: “A Bíblia”. Saquem este trecho: “A multidão colorida e caótica atravessava os portões e se introduzia desornadamente nas esteiras rolantes e era transportada imóvel e curiosa para perto da cúpula de vidro onde se encontravam dois testículos gigantes. Um grande número de cabeças conversava entre si trocando impressões sobre os enormes testículos, e alguns retiravam as suas máquinas fotográficas e binóculos quando a esteira rolante os conduzia para a cúpula de vidro iluminada pelas luzes amarelas, verdes, vermelhas”. Cinematográfico, violento e visceral. Ficção contracultural brasileira.

Aí Bethânia vê Roberto Carlos e conta pro mano. Rock dum lado, bossa-novistas do outro e a multidão careta fazendo passeata contra a guitarra elétrica, pela família & o escambau. Uma noite em 67 chega: Alegria, Alegria e sua câmara na mão godardiana & Domingo no Parque e sua montagem eisenstianiana. Ruptura total. Geléia geral. Oiticica assassina o museu, Bressane & Sganzerla & Helena Ignez deslimitam a Tela. Rogério Duarte, tropicaos. Medaglia & Duprat desorquestrando o Som. Que tudo mais vá pro inferno, meu bem! Desbunde transcendental. O Kaos. Geração AI-5 reinventando a política e a arte. O pau comendo. O mundo em chamas! Violãozinho é o caralho! Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha e se esculhamba.

Tropicália: o Manifesto Antropofágico em forma de canção. O movimento em forma de disco. Roupas coloridas, sexo livre, Brasil futurista. Não temos tempo de temer a morte. Tropicália lítero-musical: Wally & Macalé & Gal: fusão de poesia & vozes. Caetano & Campos: experimentalismo concreto-sonoro-visual. Gil & Torquato: A alegria é a prova dos nove. Tom Zé & Mutantes: o caipira é o novo astronauta. Como disse Mário Pedrosa: estamos condenados à modernidade. AntroPOPfágico.

O Brasil na porrada: a juventude universotária nacional-popular pseudo-marxista proíbe o É proibido proibir. Já imaginou quando eles chegarem ao poder? Godard aponta sua câmara-revólver. Torquato se mata. O sonho acabou, quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou.

De volta à poesia: quem não foi pro exílio ou luta armada ou morreu ou pirou. Entra em cena a tecnologia chinela dos poetas marginais: moços e moças cabeludas um pouco de bode com o cerebrismo dos concretos e, no meio do chumbo militar, fazendo sua revolução do corpo & da mente, começam a rodar seus poeminhas coloquiais sobre tudo & todos em mimeógrafos, e tudo à mão, sem mãe-editora, saem às ruas vendendo em bares, por aí. – Isso não é poesia!, berrou tímido o crítico chato de mãos dadas com o doutor da universidade resguardada; Cacaso assoviou, Ana C. escreveu uma carta, Chacal na praia, Roberto Piva, então, me desculpem, pessoas da sala de jantar, mandou tudo é pra puta que pariu: 20 poetas & outros tantas e tantos espalhados por aí. Heloísa Buarque te explica; taí pra baixar. Mimeografo generation pros íntimos, poesia marginal pra história: hippies de atitude punk. A poesia na boca do povo.

Tudo ao mesmo tempo agora I: Poesia concreta/prosa caótica/ótica futura/samba-rap/chiclete com banana. Glauco Matoso e Arrigo Barnabé! Tudo vira pós-moderno. Como ter parâmetros? Precisamos deles? Quem sou eu?

Coletivos se (des)organizam.

Nuvem Cigana: um grupo de criação que editava poesia, fazia teatro e tinha bloco de carnaval e time de futebol: eventos performáticos, multimidiáticos & libertários enquanto se esperava a anistia ampla, geral e irrestrita. Tudo em volta da Palavra. A poesia segue seu curso além-livros. O Nuvem prepara o terreno pra outras paradas, os exilados voltam, os beats são editados no Brasil e as editoras Brasiliense e L&PM formam gerações de leitores com seus livros de bolso. Literatura rock’n’roll: cazuza lendo ginsberg; o Asdrúbal trouxe o Trombone? Coletivos teatrais, a Palavra no palco.

Fausto Fawcett aparece, o robô efêmero chega com suas loras heavy metal, cyberpunk tropical de camisa florida de Copacabana. Cinema-musical-literário-teatral e vice-versa. Óperas pop. Alta-baixa cultura, periferia-centro: dualidades aterrorizadas e assassinadas pelo bárbaro tecnizado Fawcett, ficção científica na praia, corpos nus plugados nos subterrâneos da estratosfera, mitos nas ruas. Kátia Flávia é a nova Capitu.

Prosa e poesia dum país aprendendo a brincar de ser livre: Reinaldo Moraes, Márcia Denser, Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll, uma geração aprendendo a viver no limite. Um certo hedonismo desencanado. Tanto Faz. Mundo, poesia e seres pós-utópicos. Acabaram-se os projetos?

Brasil: Anos 2.000: Parabolicamará é presente.

Aparecem os novos escritores, os coletivos, os blogs, os famosos e-zines, as pequenas editoras: Livros do Mal, Ciência do Acidente, Edições K, Baleia, & etcs, as revistas virtuais e físicas: o do-it-yourself repaginado. Projetos internéticos, discussões sobre a necessidade do livro em papel. Fetichismo de escritor? Alguns migram pra grandes editoras e partem pra Flip. A Web 2.0 agora pauta.

Enquanto isso: saraus na negritude das perifas vivenciando poetas, formando público. Sérgio Vaz explodindo petardos poéticos na cabeça dos centros. Rythman And Poetry enquanto coletivos & poetas dos interiores desse Brasilzão sem fronteira vão tecendo – surdamente pras mídias tradicionais e estanques – arroubos de revolução. Periferias conectadas. A torre de marfim desmoronou há tempos, desce daí, senta na roda, liga o lap & ouve: Manifesto pela Cultura Digital Brasileira. Somos tod@s piratas. Somos tod@s pontos de cultura, individuais e coletivos.

Um mundo, no qual a internet é tão vital como água e luz, todos plugados – em casa, na rua, no celular, na lan house – com banda larga – de preferência pública! – traz à tona uma literatura desarraigada de ranços analógicos de leituras apenas em livros. A geração que nasce com uma porção de janelas abertas poderá ver uma literatura hyperlink: as palavras deleitando-se aos olhos junto a vídeos e músicas embedados na página com o mesmo nível de importância pro ver & ouvir, sem hierarquismos estéticos, tudo intrínseco e sensual. P2Poesia: poetas-programadores. O software é a mensagem.

Tudo ao mesmo tempo agora II: Rádios livres, softwares livres, pontos de cultura, gestões colaborativas, código aberto, midialivrismo libertário, intervenções urbanas, mundo horizontal, economias solidárias, esfuziantes fraternidades, transgressoras sexualidades, caipiradas intergalácticas, fés dançantes.

Oswald hoje faria mixtapes: `Tudo que não é meu me pertence’ e estaria fazendo passeatas pelo matriarcado livre & a favor do ócio junto a Lautreamont, num free-style beleza: ‘A poesia deveria ser escritos por todos’.

Querid@s, já é! Aquele abraço!

Leonardo Barbosa Rossato

São Carlos, Massa Coletiva, Ano 454 da Deglutição do Bispo Sardinha

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Em busca do Elo Perdido – Crítica Categoria Política

O desbunde do desbunde*

Contribuições para uma reconstituição dos fatos que levaram ao Circuito Fora do Eixo**

Por Carolina Monteiro***

O Circuito Fora do Eixo é uma rede descentralizada de produção cultural que mobiliza pessoas dos quatro cantos do país em favor de uma cultura independente, autoral e colaborativa. Suas ações têm dinamizado a cena cultural brasileira, fomentando uma oxigenação na produção por meio da descentralização e da socialização do processo de trabalho e distribuição de música, teatro, circo, audiovisual, tecnologia e informação e mobilizando artistas, produtores culturais, comunicadores, gestores e intelectuais em coletivos de produção espalhados em 24 estados. Nesse sentido, reivindicar a Tropicália e o Modernismo, marcos da história da cultura libertária brasileira, como antecedentes deste fenômeno, é não só legítimo do ponto de vista histórico – uma forma de compreender o longo processo que desemboca na possibilidade de uma movimentação desta complexidade -, como necessário para a construção de um projeto propositivo que avance histórica e politicamente no sentido da afirmação de um mercado cultural alicerçado sobre bases mais democráticas.

O modernismo, movimento cultural sem precedentes na história do país, repercutiu fortemente na cena artística da primeira metade do século XX, sobretudo no campo da literatura e das artes plásticas. Foi marcado pela liberdade de estilo em contraposição à métrica vazia do parnasianismo vigente. Seu mais significativo feito foi a síntese improvável entre as tendências artísticas lançadas pelas vanguardas européias antes da Primeira Guerra Mundial e as raízes culturais brasileiras, que foram deglutidas conjunta e “antropofagicamente”, resultando num híbrido que simboliza a ruptura definitiva com a arte tradicional. O modernismo lançou suas bases a partir da cidade de São Paulo que, contagiada pelo discurso do progressismo e do nacionalismo, buscava uma atualização das artes.

A tropicália, por sua vez, radicalizou a abertura modernista, se expressando pelo “desbunde” generalizado à cultura obscurantista da opressão que vigorava no Brasil na década de 60. Suas ações tinham um conteúdo essencialmente estético e comportamental e propuseram rupturas para a música, o teatro, as artes plásticas, o cinema. Assim, reinventou-se a poesia, coloriu-se os festivais midiáticos, libertou-se o ato de criação artística das amarras de uma prática cultural caduca e purista, numa conjunção entre vanguarda, cultura popular e indústria cultural. Embora não tenha se constituído como um movimento no estrito termo, a tropicália empreendeu uma experiência estética com enorme potencial crítico-reflexivo de ruptura e renovação, como foi a antropofagia para a cultura, a pop art para a arte e o concretismo para a poesia.

Tanto o Modernismo quanto a Tropicália, resguardadas as suas particularidades, estão inevitavelmente vinculados ao seu contexto histórico. É a profunda compreensão do momento que torna possível a manipulação das condições e mecanismos favoráveis à novidade, o que, neste caso, abriu passagem para as contínuas transformações pelas quais passaram cultura brasileira a partir do século XX. O modernismo, por exemplo, surge na São Paulo dos anos 10 e 20, caracterizada então pelo afluxo de imigrantes italianos e por uma juventude intelectualizada crítica ao academicismo e às influências francesas da belle époque. Diferentemente do Rio de Janeiro, um reduto da burguesia tradicionalista e conservadora à época. As práticas vivenciadas pelos diversos movimentos sócio-culturais expressam, portanto, a evidência de um processo que é fundamentalmente político.

Em uma de suas lições mais valiosas, o filósofo italiano Antonio Gramsci (2004) ressalta a relevância de “uma justa análise das forças que atuam na história de um determinado período” para se clarear a relação entre elas e as posições que efetivamente podem assumir nas disputas pela hegemonia****. “É necessário mover-se no âmbito de dois princípios: 1) o de que nenhuma sociedade se põe tarefas para cuja solução ainda não existam as condições necessárias e suficientes, ou que pelo menos não estejam em vias de aparecer e se desenvolver; 2) e o de que nenhuma sociedade se dissolve e pode ser substituída antes que se tenham desenvolvido todas as formas de vida implícitas em suas relações”.

Uma das imagens que, nesse sentido, melhor evocam a idéia que tem representado o Circuito Fora do Eixo é aquela d’O Artista Igual Pedreiro*****. A ação político-cultural empreendida no âmbito da rede expressa um conteúdo marcadamente profissional e comprometido com o mundo do trabalho. Ao contrário do Modernismo e da Tropicália, o Circuito se constitui num processo de estruturação do processo produtivo da cultura. Um dos aspectos mais interessantes desta escolha diz respeito à opção pela autogestão como forma de gerir um movimento que atua em dimensões continentais. Daí depreende-se um dos aspectos históricos e metodológicos mais expressivos das potencialidades políticas da rede: a sistemática ocupação da Internet e a exploração dos potenciais das novas tecnologias da comunicação.

A prática da autogestão (SINGER, 1998, 2002) visa a criação de um ambiente democrático de administração, com as informações fluindo livremente entre os membros do empreendimento, já que, neste caso, há uma real apropriação, pelo trabalhador, do processo produtivo, bem como dos resultados do seu processo de trabalho. A escolha por esta forma de gestão em detrimento de outras tantas cria, por si mesma, possibilidades para o desencadeiamento de um circuito de ressignificações que repercutem não apenas economicamente, mas cultural, ética e politicamente. A discussão a cerca da “tecnologia social” é um destes aspectos. A grosso modo, a tecnologia social compreende as técnicas e/ou metodologias reaplicáveis desenvolvidas conjuntamente com o “beneficiário” do produto ou serviço, representando efetivas soluções de transformação social.

A ocupação da internet como grande arena de debates, troca de informações, articulação e gestão do movimento; a potencialização da capacidade dos novos meios de comunicação em produzir informação, arte e comunicar a cultura; a socialização dos grandes meios de produção da contemporaneidade; todas estas ações sendo empreendidas em favor de uma prática cultural livre dos jogos mercadológicos são formas de tecnologia social e socialização da tecnologia, mas, num outro nível, são formas de subversão de instrumentos criados originalmente como suporte da ideologia dominante, detectores da racionalidade objetiva, em favor de um projeto de emancipação dos sujeitos sócio-culturais.

Uma tal concepção das novas tecnologias de comunicação insere-se, ainda, dentro da problemática da comunicação popular. Esta área do saber e campo de ação tem oferecido contribuições para um modelo de intervenção social orientado no sentido de conferir aos indivíduos e coletividades secularmente oprimidos uma visão sistêmica de sua condição no mundo, das mediações às quais está sujeito, bem como das possibilidades de intervenções sociais libertadoras pelas quais ele pode construir sua história. Na concepção da comunicação popular, o indivíduo supera a condição de receptor ou emissor, e passa a produzir e consumir participando coletivamente da construção de conteúdos e da gerência de sua transmissão. Cicília Peruzzo (2004) ancora a comunicação aos movimentos sociais, creditando a ela a capacidade de “articulação de propostas políticas”, que respondem às contradições sociais se estruturando como luta da população por “espaços democráticos negados pela classe do poder”.

Não por acaso, o Circuito Fora do Eixo se liga, inclusive formalmente, ao Movimento de Economia Solidária. Ao contrário do discurso que pretende situar detentores de capital e detentores de força-trabalho em condições de igualdade no mercado de trabalho – o que se constitui no fundamento ideológico do mascaramento e legalização da exploração -, o projeto de uma Economia Solidária (SINGER, 2000, 2002) busca a construção de uma nova sociedade igualitária, a partir de uma transformação cultural por meio da qual os empreendimentos passem de lugar de exploração a lugar de reprodução ampliada da vida. Seu grande potencial está nesta capacidade de redesenhar padrões, no que se refere aos hábitos relacionados com os mecanismos de produção, distribuição e consumo de bens e serviços, mas principalmente com relação à busca por uma nova configuração mental para o trabalhador.

Em um tempo histórico em que a ideologia do capitalismo busca sedimentar o senso comum de que não há alternativa a esse modo de produção, o Circuito Fora do Eixo surge como uma construção cotidiana e gradual da negação, que se manifesta positivamente sob a forma de relações sociais renovadas, que se dão em contextos de produção associada e fomentam novas concepções e práticas de formação humana. Significa reafirmar, como o mestre Jards Macalé, que o “desbunde desbundou” – que a juventude ultrapassou a enorme porta entreaberta pelo esforço de movimentos como o Modernismo e Tropicália e está viabilizando formas de vivenciar, no médio e longo prazo, não só uma cultura independente e autoral, mas uma opção profissional comprometida com um projeto político-econômico assentado sobre valores emancipadores. O processo que está em curso constitui-se por meio da contínua (re)criação de narrativas e da experimentação de relações sociais, culturais e produtivas horizontalizadas, pautadas pela autogestão, associativismo, troca e compartilhamento em rede, além do mais, capaz de alicerçar novos marcos subjetivos inseridos no campo das complexas tensões ideológicas e disputas de sentido na contemporaneidade: uma síntese histórica que a juventude persegue desde o mais remoto dos tempos.

Notas:

* Referência à expressão “O desbunde desbundou”, utilizada por Jards Macalé no segundo dia de debates do Observatório Fora do Eixo, contextualizando o atual estado do “desbunde” (o termo foi primeiramente utilizado por José Celso Martinez, no primeiro dia de debates, para caracterizar o comportamento da juventude durante a Tropicália).

** Crítica Literária produzida dentro da abordagem “Política” para a Campanha do IV Observatório Fora do Eixo. Com o tema “O Elo Perdido”, esta edição propôs o debate sobre os dois dos maiores movimentos da cultura brasileira e suas influências na cultura independente hoje: A Tropicália e o Modernismo.

*** Carolina Monteiro é graduada em Comunicação Social – Jornalismo pela UNESP/Bauru (2005) e especialista em Comunicação Popular e Comunitária pela UEL/Londrina (2010). Sua linha de pesquisa tem-se consolidado na abordagem da Comunicação Popular, a qual experencia no âmbito da Economia Solidária, desde 2005. Atualmente está cursando o mestrado em Comunicação na Unesp, linha Práticas Culturais. Sua pesquisa propõe identificar e discutir os mecanismos comunicativos utilizados pelo Circuito Fora do Eixo, a partir das abordagens teórico-metodológicas da Comunicação Popular e Economia Solidária. Para tanto, está acompanhando o Enxame Coletivo, de Bauru. Pretende acompanhar o coletivo Goma no segundo semestre.

**** Hegemonia: conceito desenvolvido pelo filósofo Antonio Gramsci para designar a conquista do consenso e da liderança cultural e político-ideológica de uma classe ou bloco de classes sobre as outras. Além de congregar as bases econômicas, a hegemonia tem a ver com entrechoques de percepções, juízos de valor e princípios entre sujeitos da ação política.

***** “Artista igual Pedreiro” (2008): álbum de estréia do power trio cuiabano Macaco Bong, do Coletivo Espaço Cubo, um dos fundadores da rede Circuito Fora do Eixo.

Referências Bibliográficas

PERUZZO, Cicilia Krohling. Da observação participante à pesquisa-ação no campo comunicacional: pressupostos epistemológicos e metodológicos. In: MELO, José Marques de; e GOBBI, Maria Cristina (Org). Pensamento Comunicacional Latino-Americano: da pesquisadenúncia ao pragmatismo utópico. São Bernardo do Campo: Umesp: Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional, 2004.

GRAMSCI, Antonio. Escritos políticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

SINGER, P. & SOUZA, R. (2000) A economia solidária no Brasil: a autogestão como resposta ao desemprego. São Paulo, CONTEXTO.

SINGER, Paul. Introdução a Economia Solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.

_________. “Uma Utopia Militante: repensando o socialismo”. Petrópolis: Vozes, 1998.

Em Busca do Elo Perdido – Crítica da Categoria Arte

Os Mutantes-Os Mutantes (1968)
Ficha técnica
Produção: Manuel Barenbein
Arranjos: Rogério Duprat
Participação especial: Clarisse Leite, Jorge Ben e Dirceu
O álbum de estréia da banda tem foco principal nos ideais sonoros do movimento. O álbum, além de composições da banda, reúne composições de Caetano e Gil, como “Panis et Circenes”, canção filosófica que liga a política do Pão e Circo com a situação do país na época e “Bat Macumba”, com sua métrica e temática únicas, somadas ao efeito criado pelo pedal da guitarra de Sérgio. De Caetano, gravaram ainda “Baby”, com um maravilhoso arranjo e também “Trem Fantasma”, feita em parceria com a banda, onde na introdução fazem uma espécie de homenagem à Banda de Pífaros de Caruaru, da qual Gil e Caetano tinham grande admiração. Jorge Ben contribuiu com “A Minha Menina”, onde também toca violão e faz alguns vocais. Os pais de Arnaldo e Sérgio também contribuíram neste disco. A mãe, Clarisse Leite, toca piano na faixa “Senhor F”, composição sensacional do trio e o pai, Dr César, participa dos vocais em “Ave Gengis Khan”,  uma “homenagem” do grupo ao  imperador mongol. Nas canções “O Relógio” e na francesa “Le Premier Bonheur du Jour” mostram grandes elementos experimentais. Na primeira, usam percussões feitas no próprio estúdio com tampas de garrafa e na segunda, o tempo é marcado com uma bomba de Flit. Além da interpretação de “Le Premier Bonheur du Jour”, está presente a canção de Sivuca e Humberto Teixeira, “Adeus Maria Fulô” que retrata a situação da seca no país e a tradução de uma música do The Mamas and Papas, batizada “Tempo no Tempo”. O disco atingiu o 9º lugar na lista dos “100 melhores discos de música brasileira” da revista Rolling Stone.Tropicalistas-Tropicália ou Panis et Circencis 1968
Arranjos e regência: Rogério Duprat
Produção: Manuel Barenbein

Esse disco ficou conhecido como “disco manifesto do Tropicalismo” e segundo o dicionário, um manifesto é “uma declaração pública de princípios e intenções”. Portanto, esse disco veio a mostrar os principais ideais tropicalistas, algo ainda inédito no Brasil. Gravado em Maio de 1968 e lançado pela Philips, Tropicália ou Panis et Circenses além de contar com a maioria das composições feitas pelos principais “expoentes” musicais do movimento, ainda contou com a particição dos compositores (também participantes ativos do movimento) José Carlos Capinan, que compôs em parceria com Gil a música “Miserere Nobis”, faixa que abre o disco e com Torquato Neto, que compôs as músicas “Geléia Geral” (com Gil) e “Mamãe, Coragem” (com Caetano). Além das já citadas, traz Nara Leão cantando “Lindonéa”, de Caetano, o clássico de Tom Zé “Parque Industrial”, a porta de entrada do primeiro disco d’Os Mutantes, “Panis et Circenses” e uma nova interpretação da também gravada pelo trio “Bat Macumba”.  O disco ficou em 2º lugar na lista dos melhores álbuns de música brasileira eleito pela revista Rolling Stone e sua importância e influência atravessam décadas, encantando artistas de diversos estilos e formações. O experimentalismo, a genialidade dos compositores e os arranjos incríveis de Duprat dão a esse disco a condição de indispensável nas estantes dos brasileiros.

Caetano Veloso-Caetano Veloso (1968)
Produção: Manoel Barenbein
Arranjos: Júlio Medaglia, Sandino Hohagen e Damiano Cozzella
Participação: Musikantiga, Beat Boys, Os Mutantes e RC-7

Não me recordo bem, mas este deve ter sido meu primeiro contato com a Tropicália. Julgando o disco pela capa (e que capa!), pensei “deve ser um disco de rock do Caetano, preciso ouvir”. Ao mesmo tempo era um disco de rock e não era. Os três grandes clássicos tropicalistas de Caetano estão presentes nesse disco. Começando com “Tropicália”, que se inicia com um discurso do percussionista Dirceu no estilo “Descobrimento do Brasil”. As outras duas inclusas são “Alegria, alegria”, canção que Caetano apresentou no festival de 67 e “Superbacana”, uma bela mescla do rock com arranjo orquestral perfeito. A belíssima canção “Clarice” era odiada por Caetano, mas acabou por entrar no disco. Na parceria com Gil “No dia em que vim me embora”, o destaque fica para o órgão. Falando ainda em Gil, outra composição sua bem Tropicalista entra nesse disco, “Soy loco por ti, América”. O disco ainda tem bossinhas bem rítmicas, como “Onde andarás”. Para finalizar o disco, Caetano ainda escolhe uma música fantástica chamada “Eles” onde no fim diz uma de suas frases mais geniais: “Os Mutantes são demais!”

Tom Zé-Tom Zé (1968)
Produtor: João Araújo
Arranjos: Damiano Cozella, Sandino Hohagen
Participação Especial: Os Versáteis e Os Brasões

Cada vez que ouço esse disco, acredito menos que foi lançado nos tempos da ditadura. Já de início, temos a canção que deu a Tom Zé o primeiro lugar no Festival da TV Record em 68, onde tocou acompanhado d’Os Brasões, “São São Paulo”, que retrata a forma como a cidade funciona. Algo notório no disco é a crítica ao comportamento da sociedade em suas diversas faces de forma sarcástica, como nas faixas “Sem estrada e sem mais nada”, “Sabor da burrice”, “Gloria” e principalmente “Profissão Ladrão”, um samba com ritmo progressivo que narra a história de um trabalhador, por vezes confundido com um ladrão e ainda ilustra os tipos de larápio, falando até de figuras nacionais e diplomatas. Na sonoridade do disco, notamos a presença dos belos arranjos e uma boa exploração do órgão, tudo com o bom ritmo do samba, do frevo e outros ritmos nordestinos. Além das citadas, o disco traz dois clássicos do movimento. “Namoradinho de Portão”, gravada também por Gal Costa, onde nesta faixa inclui-se uma bela linha de flauta- com direito a “Cai, cai, balão” na introdução- e um dos ápices da Tropicália, “Parque Industrial”, com arranjo bem diferente da versão do álbum manifesto.

Rogério Duprat-A banda tropicalista do Duprat (1968)
Produção: Manoel Barenbein
Arranjos e Regência: Rogério Duprat
Participação Especial: Os Mutantes

A Banda Tropicalista do Duprat foi idealizado pelo produtor Manoel Barenbein, achando que sendo tão importante para o movimento, o maestro deveria ter seu próprio disco. Idéia magnífica, o que pecou é que o repertório não ficou com tantas características Tropicalistas, porém isso não fez deste um disco ruim ou sem importância para o movimento. O disco é basicamente composto por covers rearranjados pelo maestro. Duprat contou nesse disco com a participação d’Os Mutantes, que gravaram as faixas “Canção para inglês ver/Chiquita Bacana”, medley que funciona muito bem, “Cinderella rockfella”, “The rain, the park and other things”, que não saiu nada brasileira, mas ficou muito bem e a beatlemaniaca “Lady Madonna”, que ficou mais rítmica e nota-se mais a presença do piano. Ainda dos Beatles, Duprat fez um novo arranjo para “Flying”, canção do álbum Magical Mystery Tour.  “Chega de Saudade” recebeu um arranjo que deve ter feito o queixo dos grandes conservadores de época cair. Deixando este grande clássico da Bossa Nova com cara de música de gafieira e adicionando alguns elementos da música pop, Rogério Duprat fez mais uma vez jus ao eu apelido de “mago”. Passando do discípulo para o mestre, temos uma versão instrumental de “Baby”, composição de Caetano, que ficou mais emocionante e suave do que na versão original. No mais, temos a primeira canção “Judy in disguise”, que ficou com mais cara de brasileira com a adição da cuíca, e os medleys de “Canto chorado/Bom tempo/Lapinha” e “Ela falava nisso todo dia/Batmacumba”, tendo a última ficado com um ar carnavalesco muito legal.

Lucas Rodrigues Vieira- 01/07/2010