Resumo GD Observatório Fora do Eixo – Trocas Solidárias

1º OBSERVATÓRIO FORA DO EIXO

Quarta-feira – 5 de agosto

GD – Trocas SolidáriasPalestrante – Felipe Bannitz – TCP-FGV Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Fundação Getulio Vargas

Trabalha com pesquisa científicas – moedas sociais

Indicação da Incoop por olhar para finanças com base na crítica ao capitalismo

faz parte de ITCP (Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares) de São Paulo, que tem olhar para finanças para entender problemas do mercado financeiro (questões complexas no sistema monetário atual, baseado no dólar)

com base na crítica, constroem uma nova proposta, baseada na Economia Solidária

Contexto:

capitalismo – forma de organização social econômica e politicamente baseada na competição

gera ganhadores e perdedores

ganhadores vão acumulando vantagens e perdedores acumulam desvantagens

resultado – exclusão, cultura de guerra silenciosa – olhar para o outro como uma ameaça

divisão básica do mercado

1) trabalho – produto: força de trabalho – considerada uma mercadoria que pode ser comprada e vendida

cooperativismo – vem romper com essa lógica – autogestão

associação entre iguais (em vez de patrão e empregado)

2) bens e serviços – produção – mercado imperialista dominado por grandes oligopólios que acumulam cada vez mais força (Ex: Monsanto, que conseguiu barrar cartilha sobre alimentos orgânicos)

3) financeiro – problemas estruturais

tentativa de reinverter 4 pontos

3.1) emissao de moeda – feita de forma heterogestionaria – taxa de juros (preço da moeda) – dinheiro é vendido pelos bancos

quem pega $ paga o preço da moeda que são os juros. Esse controle é feito de forma centralizada, e fora do controle do Estado (ação dos grandes conglomerados) – a população fica totalmente alheia do entendimento e da possibilidade de influenciar o controle monetário.

3.2) toda moeda que é criada nova baseada em dívida

banco recebe depósito e pode emprestar valor superior ao que foi depositado.As moedas são colocadas no mercado através de dívidas

em vez de ser usada como ferramenta de distribuição de renda, expansão da massa monetária gera concentração de renda – bancos

sugestão de vídeo: money as debt – http://www.youtube.com/view_play_list?p=563AEBBD4EEFDDCB

3.3) juros compostos – juros sobre juros – faz com que dividas cresçam

isso obriga o crescimento das economias nacionai.  A economia capitalista tende a crescer ao infinito (juros levam a crescimento exponencial) – único ser vivo que cresce infinitamente é o cancer – fim é a morte – se tendencias se mantiverem, tendencia é a morte do planeta

juros sobre juros levam a priorização de investimentos de curto prazo, daí a dificuldade em investimentos mais estruturais, como habitação, agricultura orgânica – que geram retorno a longo prazo (superior a 5 anos).

esses pontos – paradigma da escassez (a teoria econômica clássica tem como base a escassez)

plástico, petroleo, trabalho, terra – escassos, logo, moeda também tem que ser escassa

se moeda for abundante para possibilitar trocas não ia haver juros, não ia ser possível fazer $ com $

Muitas pessoas têm possibilidade de oferecer produtos, serviços ao vizinho que, por sua vez, também tem o que oferecer, mas isso não acontece porque não tem moeda.

emprego que vai te dar $ para vc comprar o serviço do seu vizinho

moeda como ferramenta de corrosão social que dificulta o florecimento do potencial produtivo das pessoas

pq não pensar num sistema financeiro global?

É factível às pessoas compreenderem a questão da mais valia

entender as questões do merc financeiro é mais difícil

não temos formação que garanta a possibilidade de entendimento de como a economia funciona hj e de como podemos, a partir de um olhar crítico,construir, coletivamente, um novo modelo

comunidades exitosas – possibilitam entendimento de como isso pode ser possível

heterogestão – hj moeda é gerida pelo banco central

contudo, existem experiências em bairros, comunidades que criaram suas próprias moedas e as gereciam de forma autogestionária (a partir de processo de alfabetização financeira)

hj temos certo aval do Banco Central para essas moedas, pois elas são identificadas como uma estratégia de combate à pobreza

questão da moeda criada com base em dívida

Programa Fome Zero – renda básica

perspectiva interessante: governo poderia emitir a moeda com base na renda cidadã

questão dos juros compostos

qdo se cria uma moeda – ideia é facilitar as trocas

pessoas entendem que moeda serve prá isso, podem passar prá frente

moedas sociais não levam juros por causa do paradigma da abundancia

não se guarda moeda social no bolso

quando se retêm a moeda – ela se enfraquece

a ausência de juros ajuda, portanto, que a moeda exerça seu papel de ferramenta de trocas

juros compostos – prioridade investimentos de curto prazo

o uso das moedas sociais prioriza investimentos de longo prazo (atividades econômicas culturais educativas, cujos resultados vêm depois de anos)

moedas nacionais deveriam priorizar baixas taxas de juros para estimular criação de novos empreendimentos

ideia da moeda social não é substituir moeda nacional, mas sim aquecer economias locais

por isso se fala de sistema de finanças global – viabilizar intercâmbios

Práticas para implementação moeda social:

1) Banco de Tempo – sistema de contabilidade de horas de trabalho. Valorização por tempo – diferente da lei de mercado estabelecida hj (lei da oferda e da procura.

pessoas interessadas em intercambiar, por meio de boletim impresso ou online, oferecem seus serviços e apontam suas demandas

necessário um certo controle das dívidas e créditos para que não haja acúmulo (o desejável é que exista uma tendencia ao zero)

indicação de software que ajuda grupos a formarem bancos de tempo, ajudar fazer contabilidade das horas

No banco de tempo há um resgate do valor do trabalho! O TRABALHO GERA A RIQUEZA E DEVE SER REMUNERADO E VALORADO – ligado ao socialismo científico e o marxismo. A relação é com a quantidade de trabalho investida, não com a oferta daquele tipo de serviço (que é o que ocorre numa economia baseada na escassez – lógica do mercado: lei da oferta e demanda independentemente da quantidade de trabalho envolvida nisso. Ex: agricultura

2) LETS (Local Exchange Trading System) – caderneta (que pode ser online) baseada em valor monetário.

Funciona basicamente como banco de tempo, mas possibilita troca de produtos tb.

Valor monetário dos produtos/serviços pode ter paridade com a moeda corrente ou o valor pode ser combinado dentro do grupo.

Limitação: qto maior o grupo, mais difícil a gestão (o software ajuda, mas qdo grupo é mto grande, podem ocorrer problemas de sobrecarga em algumas pessoas)

Mais próximo da economia capitalista  dinheiro, acúmulo – perde um pouco da essência do banco de tempo – da troca, por outro lado, há uma oportunidade de crescimento e aumento da capacidade de abranger maior número de pessoas.

3) Feira de Trocas (origem no LETS) – pessoas se juntam e criam uma moeda que facilita trocas

possibilita a expansão da moeda social

o débito e o crédito estão implícitos

feiras reúnem os “prosumidores” (produtores e consumidores)

Experiência mais próxima da lógica de mercado – chegamos mais perto do dinheiro mesmo (percepção da prática), da cultura do guardar $, que gera efeito em cascata de enfraquecimento da economia local

Por outro lado, se ganha a possibilidade de crescer (feira de trocas em SP reúnem cerca de 300 pessoas / na argentina feiras de trocas chegaram a reunir 3000 pessoas)

(Existe um debate sobre tamanho adequado)

Por trazerem um pouco a lógica do merc tradicional, feiras ajudam as pessoas a se alfabetizarem em economia, através da vivencia – espaço pedagógico

usadas como instrumento para preparar empreendimentos para entrarem no mercado (não para aprender a ser competitivo e agressivo, mas para aprender a se defender neste mercado)

feira de trocas uma das prioridades na ITCP

Uma feira de ecosol não é só um espaço para trocas monetárias e de produtos, traz uma conscientização para os participantes – espaço pedagógico, imersão, vivência e entendimento (em feiras de ecosol, sempre há palestras e oficinas, além das trocas proporcionadas pela vicência e contato com outros empreendimentos). Os empreendimentos vão se preparando nessas feiras (escola) – eles entendem melhor o funcionamento da economia e assim a se defender com práticas mais solidárias (entendem que podem criar moeda a partir de seu próprio trabalho).

ajuda tb a resgatar a auto-estima das pessoas (normalmente dificuldade de conseguir $ – qdo recebem moeda social, percebem que têm algo a oferecer – revolução psicológica)

ferramenta terapêutica – trabalho tb com saúde mental

4) Bancos Comunitários

experiencia do Banco Palmas – conseguiram fazer com que o comércio local aceitasse a moeda social – moeda deixa de ser restrita a espaços fechados e passa a ser aceita em todo o bairro

(que vira um “mercado-escola”)

do banco de tempo para as feiras de trocas se perde um pouco do significado do trabalho pq, para garantir aceitação da moeda no comércio, é necessário garantir que essa moeda possa a ser trocada por Real (lastro)

potencial de reorganizar consumo e produção local

Porque os bancos comunitários devem ter lastro (cada moeda colocada em circulação deve ter uma moeda corrente guardada para garantir resgate da moeda social), entra-se novamente no paradigma da escassez – comerciantes tendem a guardar a moeda

Contudo, os bancos comunitários têm capacidade de mudar vida das pessoas de forma mais intensa, fortalecendo o comércio local.

Resumindo:

Banco de tempo – valoriza mais o trabalho, mais “pedagógica”

Bancos Comunitários – semelhança em relação à economia hegemônica, maior alcance

É preciso ver o que é mais adequado para cada local

Cubo Card – sistema próximo do LETS

PERGUNTAS

Pergunta 1: Lenissa Lenza – Espaço Cubo (MT)

Queria saber exemplos de moedas complementares no brasil?
e também como um banco solidário chega num valor total de moeda pra colocar em circulação?

Pergunta 2: Talles Lopes – Coletivo Goma (MG)

Felipe, o CFE tem como uma de suas principais ferramentas o Fora do Eixo Card. Temos duas moedas já implementadas fisicamente, o Cubo card e o Goma card. Vc conhece outras experiencias como essa no campo cultural? Como somos hj 40 pontos fora do Eixo, e o indicativo é de que todos criem suas moedas, qual seria a maior dificuldade para integrarmos todas estas moedas num único sistema?

existem hj 50 bancos comunitários, logo 50 moedas complementares ligadas a esses bancos

5 redes estaduais de trocas solidárias

2005 – 120 moedas cadastradas (impressão de que mtas moedas acabaram / chute – 100 moedas complementares em circulação, principalmente no nordeste, SP e sul)

5 moedas

no sul + 5 experiencias

bancos comunitários – mecanismo de inserção de moeda, devem garantir retenção de reais

parcerias com BB ou Caixa, principalmente

qdo se pega crédito para reformar casa – empréstimo em moeda social sem juros

compra de material de reforma com moeda social

comerciante que vende esse material paga em moeda social o banco, que emprestou ao comerciante em Reais.

outra forma de colocar moeda social em circulação:

Negociação com comerciantes para que se consiga desconto quando pagamento é feito em moeda social

depois – troca moeda por reais

quantidade de moeda em circulação depende da capacidade de capitalização do banco

não conhece outras experiencias no campo da cultura

(guarujá – entrada em eventos é paga em garrafas pet / produtos reciclados = créditos em cooperativa)

ideia da moeda social é descentralizar – em vez de se criar grande grupo no qual se perde democracia

se existem várias feiras que aceitam a msm moeda – as menores se enfraquecem

diferentes estágio de implementação

se discrepância é mto grande – tendencia é que a moeda migre para os sistemas mais fortes

possível solução: sistema de cambio – trocar moeda na entrada da feira

a organização das duas feiras ficam com moeda uma da outra

de tempos em tempos se destroca essas moedas

se uma das feiras tem menos moeda – troca de produtos ou compensação em trabalho

ideia é deixar moedas locais, mas criar sistemas de cambio e compensações para manter o sistema

Pergunta 3: Mari – Amazonia

levando em conta a dinamica das feiras de troca, qual é o limite sustentável de participantes? quais as variaveis que se leva em conta?

Pergunta 4 – Carlos Eduardo – Massa Coletiva – SP

Em sua fala você citou o Centro de Atendimento ao Psicosocial (CAPS), como o trabalho junto ao CAPS pode se relacionar à esse modo alternativo de olhar o capitalismo e a vida?

Limite sustentável de participantes – qdo feira cresce e vc já não conhece todo mundo, deve-se dividir a feira, mas não há regra

cada feira tem sua autonomia para determinar isso

dicas: qdo se chega em 500 é hora de se pensar e variável importante é garantir que pessoas se conhecam

CAPS – ministério da saúde – forte nessa questão da integração da ES e saúde mental

existe uma pessoa dentro da Senaes só para cuidar desse tema

Economia Solidária é o caminho para que pessoas possam se reintegrar de forma harmônica – ambiente mais saudável, propício para que pessoas possam se desenvolver

trabalho gera prazer qdo exercido sem pressão, sem cobranças excessivas – espaço terapêutico

dentro dessa discussão existe uma rede de Saúde Mental e Ecosol no estado de SP

Serra – indicação da Ecosol como método para trabalhar saúde mental

Caps – oficinas de artesanato, terapêuticas, de convivência – desdobramento disso é formação de grupos para geração de renda

feira de trocas – convivência ampliada – troca econômica entre grupos

sentimento de utilidade devido ao interesse por aquilo que foi produzido

Pergunta 5 – Piti – Cidadao do Mundo – São Caetano – sp

Até onde o intercambio entre uma moeda social e uma moeda comum pode influenciar e prejudicar a essência de trocas solidárias e conscientes?

Pergunta 6 – Laura – Lumo – Recife – PE

Como funciona, no sistema de bancos populares, a questão do investimento no lastro em “moeda oficial”? É um investimento normalmente feito pelo poder público?

limitação – para colocar moeda em circulação, necessário ter dinheiro

perde-se a essência do paradigma da abundancia, essência pedagógica das trocas

outro problema: tendência à retenção da moeda – se comerciante pode trocar moeda social por real, tende a guardar a moeda para ir trocar depois – trocas minguam

necessário colocar o trabalho em funcionamento para gerar riquezas

bancos comunitários – investimento do lastro em moeda oficial é problemático pq não leva a um fluxo

estoque é um problema

não adianta guardar o $ na conta do banco para fazer as trocas com os comerciantes porque depois de um tempo os comerciantes trocam as moedas e a moeda social acaba, sai de circulação

moeda tem que entrar e sair – tem que haver fluxo

importante construir mecanismos para recolocar moeda em circulação (ex: empréstimos em moeda social com o incentivo de não pagamento de juros – leva ao consumo no bairro e, consequentemente, ao fortalecimento comercio local)

negociar descontos com comerciantes – troca-se moeda corrente da população (ganha como salário) por moeda social por conta dos descontos

comerciante paga empréstimos obtidos em moeda corrente com moeda social.

microcrédito – sustentabilidade, continuidade

importante desmistificar os juros, que são importantes para garantir continuidade do processo (pois algumas pessoas não vão pagar), mas juros devem ser justos

Pergunta 7 – No Banco de tempo, o valor dos serviços são medidos em horas de trabalho, um critério quantitativo. Como tratar a questão da produtividade e da diferença da qualidade e um mesmo serviço ? Eles valem a mesma coisa?

Essa é uma questão mal resolvida inclusive no socialismo – decisão do grupo

banco de tempo – troca de hora por hora de qualquer serviço, independentemente da qualificação necessária para o desempenho da atividades

se sai disso, vira LETS

preço não precisa ser compatível com real – pode-se criar um outro critério de precificação

e aí se faz o intercambio

diferença de qualidade, teoricamente, ninguém vai comprar (questão colocada por P. Singer)

pessoas tendem a comprar daquele que produz com melhor qualidade

Singer – Estado tem que resolver isso – reinserir pessoas cujos serviços não têm qualidade suficiente

horas de estudo e responsabilidade – questões que o grupo deve discutir

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