A Cultura na Economia da Abundância

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Desde os primórdios da civilização, os homens têm buscado satisfazer suas necessidades por meio de trocas. A moeda surge como um mecanismo de intermediação dessas trocas, facilitando a valoração daquilo que é trocado e permitindo a acumulação do poder aquisitivo para ser utilizado no futuro. Em suma, a moeda surge para facilitar as trocas.

Contudo, com o advento do capitalismo, a essência da utilidade da moeda foi se perdendo. Algumas das características desse sistema, como a propriedade privada dos meios de produção, a exploração do trabalho assalariado e a popularização dos juros favorecem o acúmulo de riquezas, promovendo uma economia da escassez. Isso porque poucas pessoas concentram grande parte das riquezas produzidas e a maioria das pessoas conta com poucos recursos para consumir aquilo que necessitam. Esse modelo, obviamente, não é sustentável, tampouco justo.

Nesse contexto, surgem as moedas complementares, que resgatam o primeiro significado da moeda: facilitar as trocas. Como tod@s sempre têm algo a trocar, ainda que seja apenas sua força de trabalho, superamos a lógica da escassez para entrar numa economia da abundância.

Considerando a Cadeia Produtiva da Música, sabemos que as trocas, as parcerias, costumam acontecer informalmente. A moeda complementar vem para formalizar esse processo e isso é importante porque essa formalização tem o potencial de ampliar as possibilidades de trocas, promovendo o desenvolvimento sustentável de toda a cadeia. Isso porque, por meio da moeda complementar, fomenta-se a produção, a circulação e distribuição de bens culturais.

No caso dos coletivos integrados ao Circuito Fora do Eixo, há uma vantagem a mais na adoção da moeda: como se trata de uma rede de produtores culturais já bastante extensa, presente na maior parte do território nacional, entra-se num círculo virtuoso no qual a moeda tem o potencial de consolidar a rede e a rede tem o potencial de consolidar o circuito.

Além disso, os coletivos mais novos podem contar com o apoio de coletivos que já têm suas moedas (e suas estratégias de atuação) consolidadas, como é o caso do Espaço Cubo e do Goma.

Estima-se que, no Brasil, existam hoje cerca de 45 moedas complementares em circulação. É fundamental aproveitar as experiências dos coletivos que as implementaram para garantir um amplo entendimento sobre o funcionamento dessas moedas. A partir disso, é possível que cada coletivo se consolide, se fortaleça e faça da adoção de uma nova moeda complementar um processo sem atropelos.

Faz-se necessário, portanto, planejar cuidadosamente, aprofundar conhecimentos sobre lastro, liquidez, repensar quantas vezes for necessário as tabelas de produtos e serviços. Nesse sentido, o observatório Fora do Eixo Card é uma oportunidade imperdível, já que garante um espaço de troca de experiências entre os coletivos e desses com profissionais especialistas no assunto. Enfim, um excelente ponto de partida para um novo começo, para uma realidade na qual a cultura é parte de uma economia onde vigora a abundância.

*Rachel Benze é do Núcleo Cooperativo de Comunicação e Cultura do Massa Coletiva